quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O Nome da rosa



Este foi o romance que deu a conhecer Umberto Eco ao grande público, constituindo um enorme êxito de vendas em Portugal desde que foi publicado pela primeira vez, e continua ainda a ser uma obra bastante popular. E não é de espantar: escrito com imenso humor, o romance dá-nos a conhecer de uma forma expressiva o que era viver num mosteiro medieval. O tema central do romance é a liberdade de estudo e de ensino, a livre circulação do conhecimento. Mergulhada em obscurantismo durante séculos, os mosteiros cristãos constituíam fortalezas onde o conhecimento era preservado com imensas dificuldades. Dado a inexistência da imprensa, os livros tinham de ser copiados à mão por monges dedicados; em consequência, os livros eram bastante raros e de difícil acesso. A ideia ainda hoje popular de que os antigos eram muito sábios resulta em parte da falta de circulação do conhecimento que persistiu até à revolução científica dos séculos XVII e XVIII. Newton, por exemplo, teve por várias vezes a experiência de fazer redescobertas matemáticas que tinham sido conhecidas séculos antes, mas que entretanto se tinham perdido por falta de circulação do conhecimento.
Evidentemente, havia outros obstáculos à livre circulação do conhecimento, na Idade Média, além do problema tecnológico de não existir ainda a imprensa. Um dos mais importantes, tema central deste livro, era o dogmatismo religioso, que encarava o conhecimento como potencialmente perigoso. O romance de Umberto Eco apresenta-se como um livro de detectives: uma série de misteriosas mortes afectam um mosteiro e o protagonista tem por missão descobrir a verdade, um pouco ao estilo de Sherlock Holmes. O contraste entre as novas ideias mais abertas e racionais, mais voltadas para a experiência empírica, e os velhos hábitos fechados e místicos, de costas voltadas para a informação que podemos obter pela experimentação cuidadosa, desempenha também um importante papel no romance. Como é também costume nas histórias de Sherlock Holmes, as mortes a investigar têm à primeira vista um aspecto sobrenatural, mas no fim acaba por haver uma explicação muito humana, demasiado humana, de todas as mortes. Entretanto, o leitor fica preso da primeira à última página, precisamente para saber como se resolve o mistério.
As mortes são o resultado do dogmatismo religioso de um monge, apostado em impedir que um livro julgado perdido de Aristóteles, sobre o riso, possa ser conhecido. E este é um dos aspectos mais profundos e bem conseguidos do romance: poderia pensar-se que matar outras pessoas por causa de um livro sobre o humor não passa de invenção de um romancista ocioso, mas isso seria ignorar que a maior parte dos crimes que assolam a humanidade têm por base o dogmatismo intolerante de quem pensa ter o monopólio da verdade e o direito de a impor aos outros.
Alguns aspectos do romance poderão ser menos simpáticos. O autor parece apostado em atirar aos olhos do leitor uma imensidão de conhecimento histórico, o que por vezes acaba por tornar a leitura menos agradável, apesar de fazer as delícias dos diletantes. A imaginação fervilhante do autor acaba por vezes por ser labiríntica, levando a que quase se perca o fio da história. Mas a bondosa relação do protagonista com o seu discípulo, a sua defesa da racionalidade límpida e sem cedências, a oposição ao dogmatismo que procurava fazer paralisar o conhecimento — todos estes elementos fazem deste romance uma experiência inesquecível.
O título do livro surge na última frase do livro, "Stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus", que se pode traduzir do seguinte modo: "A rosa antiga permanece no nome, nada temos além do nome". A ideia é que mesmo as coisas que deixam de existir ou que nunca existiram deixam atrás de si um nome. Eco refere-se talvez ao facto de o Livro do Riso, de Aristóteles, no centro da acção, não ter existido realmente, ou apenas ao facto de, ficcionalmente, ter deixado de existir, deixando apenas o seu nome.
Desidério Murcho

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Narradores de Javé

Somente uma ameaça à própria existência pode mudar a rotina dos habitantes do pequeno vilarejo de Javé. É aí que eles se deparam com o anúncio de que a cidade pode desaparecer sob as águas de uma enorme usina hidrelétrica. Em resposta à notícia devastadora, a comunidade adota uma ousada estratégia: decide preparar um documento contando todos os grandes acontecimentos heróicos de sua história, para que Javé possa escapar da destruição. Como a maioria dos moradores são analfabetos, a primeira tarefa é encontrar alguém que possa escrever as histórias.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Macunaíma



 Macunaíma é um herói preguiçoso, safado e sem nenhum caráter. Ele nasceu na selva e de preto, virou branco. Depois de adulto deixa o sertão em companhia dos irmãos e vive aventuras na cidade. Macunaíma ama guerrilheiras e prostitutas, enfrenta vilões milionários, policiais e personagens de todos os tipos.

Filme de 1969, adaptação da clássica obra literária modernista de Mário de Andrade. Dirigido e roteirizado pelo genial Joaquim Pedro de Andrade. Macunaíma é uma das melhores adaptações cinematográficas de clássicos da Literatura Brasileira, junto com Vidas secas e memórias do cárcere, dirigidas ambas por Nelson Pereira dos Santos e as duas baseadas em livros de Graciliano Ramos. Macunaíma é um clássico do Cinema Novo e mostra a cultura brasileira, sendo que o filme vai além e torna-se uma crítica alegórica ao Brasil dos anos 60, que já era época da Ditadura Militar no Brasil, e este fato não existe no livro, pois o mesmo fora escrito ainda nos anos 20, daí a originalidade e criatividade da adaptação feita por Joaquim pedro de Andrade, o que enaltece mais ainda o seu brilhante trabalho. O elenco tem Grande Otelo (como o Macunaíma negro) e Paulo José (como o Macunaíma branco, magistral!), Jardel Filho, Milton Gonçalves, Dina Sfat, Rodolfo Arena, Hugo Carvana, Joana Fomm, Zezé Macedo, Wilza Carla e grande elenco. Ótimo filme! Dez!

quarta-feira, 26 de junho de 2013

As Brumas de Avalon

O filme narra a história de Rei Arthur (Edward Atterton) sob a perspectiva de Morgana (Julianna Margulies), uma sacerdotisa da lendária ilha de Avalon, onde nasceu a religião da Deusa mãe. Os saxões varriam a Bretanha matando igualmente cristãos e seguidores da Deusa mãe. Se um grande líder não unisse cristãos e pagãos, a região estaria condenada ao barbarismo e Avalon ao desaparecimento. Gorlois (Clive Russell), o pai de Morgana, lutava incansavelmente contra as hordas de saxões. Nesta época Morgana era apenas uma criança, que vivia na Cornuália com Igraine (Caroline Goodall), sua mãe, que era ainda uma seguidora da antiga religião e praticava secretamente a antiga magia. Morgause (Joan Allen), a irmã de Igrane, também lá morava e apreciava o poder de Avalon.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Nós que aqui estamos por vós esperamos

Tendo o século XX como emblema, o filme-documentário Nós que aqui estamos por vós esperamos bombardeia o espectador com imagens de arquivos, extratos de documentários e de algumas obras clássicas do cinema, através de uma retrospectiva das principais mudanças que marcaram este século.
São personagens diversos: famosos e anônimos, com suas diferentes histórias e que, portanto, fazem parte da história do século XX. É preciso lembrar que este é o contexto que nasce com a Primeira Guerra Mundial e por isso as imagens desses personagens se fundem as imagens de arte e guerra, sonho e realidade, vida e morte.
O século XX.